Casa do Caminho

13/03/2015 - 12h51

Centro espírita de SP que dá passe em animais faz 2.500 atendimentos mensais

Último Segundo

Associação oferece nove sessões por semana; aos domingos, rua fica lotada de carros e há até fila de espera na calçada
 
"Eu entrego o caso dele nas mãos de Deus, não quero que ele sofra. Se for para ser assim, que ele tenha ao menos uma passagem tranquila”, diz a aposentada Neusa Gerra, 64 anos, em lágrimas, sobre o câncer em metástase que debilita Myky, um cachorro maltês de 10 anos.
 
Como alternativa (ou auxílio) para sanar ou pelo menos diminuir o sofrimento do “filho caçula”, Neusa procurou pela primeira vez a Associação Espírita Amigos dos Animais (Asseama), na Vila Gustavo, zona norte de São Paulo, o primeiro e único especializado em dar passes e tratamento espirituais para animais.
 
Fundada em 2009, a associação tem sua sede em um pequeno imóvel com paredes verdes e descascadas. Por semana, são atendidos em média 500 animais em nove sessões – às quintas, sextas-feiras e aos domingos.
 
A procura é maior aos domingos, quando a rua residencial e as adjacências ficam cheias de carros, com até fila de espera na calçada: os cães e gatos são a maioria.
 
A veterinária Sandra Denise Calado, de 43 anos, uma das fundadoras e atual presidente do Asseama, diz tratar mais de 18 mil animais a distância por meio de orações nominais e mentalizações.
 
Veja a oração dita durante a sessão



No colo da dona e enrolado em um lençol, Myky, que já perdeu até uma das patas por causa do câncer agressivo, apura o focinho e observa em passivo silêncio todo o local antes de começar a sessão de passes e orações.
 
A doença foi descoberta em novembro do ano passado. O cachorro começou a mancar e a dona procurou um veterinário, que o diagnosticou com um problema ortopédico decorrente de uma torção na pata. Apesar de tomar os anti-inflamatórios, o cão não melhorou e Neusa procurou um veterinário oncologista. Myky foi diagnosticado com tumor de Askins. “É gravíssimo. O mesmo que teve o Leandro, explica a dona, referindo-se ao irmão do cantor Leonardo que morreu em 1998.
 
Por causa do tumor alojado no meio do osso, o cão teve a pata esquerda dianteira amputada. Outro tumor foi retirado da boca do animal. Agora a suspeita é que a doença tenha alcançado o pulmão. “Estou fazendo tudo que estiver ao meu alcance. Já me aconselharam até a fazer a eutanásia, porque se tiver chegado ao pulmão não tem mais jeito”.
 
Como é de praxe no primeiro atendimento no centro, cão e dona acompanharam uma palestra que durou cerca de 15 minutos. Os frequentadores também são convidados a cantar a oração de São Francisco de Assis, padroeiro dos animais. Além da dupla, cerca de 20 pessoas aguardavam atendimento. Ao contrário do que é de se esperar em um ambiente com tantos cães, o silêncio é quase absoluto, sendo rompido apenas por poucos latidos, que não encontram respostas entre os outros animais e cessam rapidamente.
 
Após a espera, cão e dona foram encaminhados para o chamado plantão fraterno, onde o animal recebeu o passe – prática de troca de energias espirituais praticado na filosofia kardecista. Ao todo, o procedimento durou menos de 30 minutos.   
 
“Ele ficou muito tranquilo durante todo o tempo, como se estivesse anestesiado. Chegou a ficar de olho fechado. Desde que entramos aqui, sinto que ele ficou mais relaxado”, contou Neusa, garantindo que voltará outras vezes.
 
O retorno semanal é parte importante do tratamento espiritual, segundo Sandra.  Além disso, donos e animais recebem água fluídica para continuar o tratamento em casa. Outra orientação importante para os frequentadores é fazer orações diárias com os seus animais de estimação.
 
Cura?
 
“A doutrina espirita não prega a cura por meio do passe. É um auxiliar para os tratamentos da terra. Nenhum tratamento espiritual, seja em humanos ou animais, visa à cura ou a substitui o tratamento físico. O passe trata o corpo espiritual e pode auxiliar a questão física, mas não pode ser o único”, afirma Sandra.
 
“Com esse tratamento, a gente vê melhora nos sintomas porque o animal se sente mais energizado. O tratamento ajuda a diminuir o efeito colateral dos remédios, ajuda o animal a sentir menos dor e promove o bem estar geral do animal”, complemente a presidente.
 
Em busca desse bem estar relatado por Sandra é que a aposentada Clea Gomes, de 66 anos, leva, há seis meses, o gato vira-lata Chico Guerreiro, de quase dois anos, para receber o passe semanal. Quando ainda era um filhote, ele foi atropelado por uma moto. Muito ferido, o animal procurou abrigo na loja onde Clea trabalhava e foi adotado por ela.
 
“A moto acertou o canal do ânus. Ele ficou sem defecar por três meses e a veterinária chegou a desengana-lo”, disse Clea. Outra especialista conseguiu o curar após oito meses de convivência diária com as dores. “Ele ficou esse tempo todo doentinho, ficava num cantinho. Depois que comecei a trazê-lo, ele ficou mais animado, sei que ele se sente muito bem aqui”, relata a dona. “Agora, ele já está até subindo no telhado. Antes não conseguia”, completa.
 
A advogada Ana Paula Barros, 31 anos, também não tem esperança de cura para a cadela pinscher de 16 anos. “Ela tem vários problemas de saúde por causa da idade e sente bastante desconforto. Tem alergia, sopro no coração e um tumor nas mamas. Mas quando eu trago ela aqui, sinto que ela fica mais tranquila e dorme melhor”, relata a dona em sua segunda visita ao local. Ela estava acompanhada da professora Carolina Pinheiro, 30 anos, que buscava ajuda para o yorkshire Juan, de 4 anos, que sofreu traumatismo craniano ao cair da escada da casa onde moram há três semanas.
 
“Vou fazer o tratamento espiritual para que ele não fique com sequelas”, explica a professora. Segundo ela, o cão esteve em coma por três dias. As medicações afetaram o rim de Juan.  Ela diz que durante a sessão o animal ficou calmo. “Até eu me senti em paz, porque a gente nota que eles realmente gostam de animais”.
 
Veganismo
 
Além dos passes, o Asseama prega o veganismo (filosofia que não utiliza nenhum produto de origem animal) para todos os 30 voluntários e orienta que frequentadores a não comerem carne ao menos nos dias das sessões.  Até uma lanchonete com produtos veganos foi instalada no local. O Asseama ainda mantém uma pizzaria vegana no mesmo bairro. Doações dos frequentadores, cursos de culinária vegana e venda de produtos, como livros, completam a renda do centro.
 
“O veganismo é uma filosofia de vida que prega a não violência aos animais. O objetivo do Asseama não é só ajudar os animais que são trazidos aqui. Queremos auxiliar todos os animais do planeta em todos os âmbitos. Todos os animais têm alma, sentimento. Se tratamos cães e gatos assim porque vamos tratar os outros diferentes?”, questiona Sandra.
 
Resistência do meio espírita
 
Apesar de encontrar solo fértil entre os donos de animais adoentados, a ideia de dar passes em animais encontra resistência no meio espírita. Segundo Marta Antunes, vice-presidente da Federação Espírita Brasileira (FEB), os animais não têm “razão” e “livre-arbítrio”, não estando aptos a receber os benefícios do passe.
 
“Quando doamos nossas energias vitais, transmitimos para uma pessoa dotada de razão e livre- arbítrio, que entra em sintonia com o doador e se coloca em posição de aceitação para receber essa energia. Diferente do homem, o animal tem uma inteligência primária e não pode decidir se quer ou não receber o passe”, explica Marta.
 
Sandra discorda e diz que, de acordo com os preceitos do kardecismo, a fase animal é apenas um dos degraus para a evolução do espírito e que eles têm consciência.
 
“A ciência já declara que os animais têm consciência. O que a gente vê é a ciência comprovando o que há anos vem sendo desdobrado na doutrina. Nosso trabalho é embasado dentro da literatura da doutrina espírita. Nada do que a gente fala é coisa da nossa cabeça", diz. 
 
Já a veterinária Tatiana Pelucio, assessora técnica do Conselho de Medicina Veterinária de São Paulo, diz que não existe comprovação cientifica de que os passes podem curar os animais, mas não descarta os benefícios da prática.
 
“Existem estatísticas que demonstram que animais submetidos ao passe somado ao tratamento veterinário tiveram uma melhora frente àqueles que só fizeram tratamento físico. Mas não sabemos se a causa da melhora foi a fé dos donos ou se há de fato a questão da energia. O que a gente frisa é que nenhum tratamento espiritual pode substituir o físico”, diz.
 
 
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